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O que é talento para línguas?

É notório e surpreendente o contraste entre a facilidade com que algumas pessoas aprendem línguas estrangeiras e a quase impossibilidade com que outros se defrontam. Maior ou menor ritmo de assimilação da língua estrangeira (maior ou menor talento) pode depender de inúmeros fatores. Este rápido estudo tem por objetivo investigar e apontar os principais fatores que influenciam o aprendizado de línguas, determinando as diferenças de ritmo e de teto.

IDADE: Um dos fatores mais notórios é a idade. Por razões de ordem biológica e psicológica, quanto mais cedo, melhor. O ritmo de assimilação das crianças não só é mais rápido, como seu teto, mais alto.

FORMAÇÃO LINGÜÍSTICA: Outro fator de peso é a formação lingüística da pessoa, isto é, o grau de semelhança que a L1 (língua materna) do aluno tem com a L2 (língua-alvo). A semelhança lingüística normalmente vem acompanhada de semelhança cultural. É evidente por exemplo a facilidade com que alemães, holandeses, dinamarqueses e suecos aprendem inglês. Mesmo brasileiros demonstram para a língua inglesa uma facilidade muito superior a japoneses e chineses, por exemplo.

VERSATILIDADE LINGÜÍSTICA: As vezes a língua-alvo é a terceira língua do aluno. Este é outro fator de decisiva importância. Os monolíngües demonstram uma forte dependência das formas da língua materna para estruturarem seu pensamento, ao passo que os bilíngües demonstram maior versatilidade mental. Aquela mente que já uma vez passou pela experiência de buscar e descobrir novas formas de expressar o pensamento que não as da língua materna, com mais facilidade consegue repetir esta façanha. Esta maior versatilidade lingüística é normalmente acompanhada de uma maior versatilidade cultural, facilitando a identificação com a cultura alvo.

ACUIDADE AUDITIVA: Este é um fator biológico de importância fundamental. Sendo língua um fenômeno essencialmente oral, e considerando-se que o aparelho articulatório de sons do ser humano (cordas vocais, cavidade bucal, língua, etc.) mostra-se extremamente limitado quando comparado ao universo lingüístico criado por sua mente, deduz-se facilmente a importância que diferenças fonéticas ínfimas vêm a ter. Não só a percepção mas também a articulação de sons dependem diretamente do aparelho auditivo, uma vez que o ouvido funciona como monitor da fala.

É sabido também que a capacidade auditiva pode variar consideravelmente de uma pessoa para outra. Quem não dispõe de boa audição, portanto, leva desvantagem da mesma forma que uma pessoa de baixa estatura estaria em desvantagem para se tornar um bom jogador de basquete. Uma avaliação fonoaudiológica pode predeterminar dificuldades ou facilidades para o aprendizado de línguas.

CARACTERÍSTICAS DE PERSONALIDADE: Fatores de ordem psicológico-afetiva podem causar um impacto direto na capacidade de aprendizado, influindo tanto positivamente como negativamente. Pessoas introvertidas e reservadas, por exemplo, normalmente mostram um ritmo de assimilação mais lento, principalmente na produção oral, pelo simples fato de se exporem menos e evitarem muitas das oportunidades de comunicação com que se defrontam quando em ambientes da língua estrangeira. Os principais fatores que atuam como filtros dificultadores da assimilação são:

Perfeccionismo: tendência de se preocupar excessivamente com a forma; idéia radicalizada do conceito de certo e errado em se tratando de línguas. A pessoa não se sente confortável na incerteza e prefere não correr riscos de cometer deslizes.


Falta de autoconfiança: baixa auto-estima, talvez causada por traumas durante a educação recebida em casa ou na escola, pode produzir carência de autoconfiança que inibe a iniciativa criativa, elemento essencial no aprendizado de línguas.


Dependência da eloqüência: A precisão e elegância no falar é uma conquista alcançada ao longo da vida, fruto de uma carreira acadêmica. Essa habilidade com nossa língua materna representa segurança e poder, dos quais é difícil abrir mão. Isso torna a tarefa de começar de novo na língua estrangeira, do quase nada, aos tropeços, de forma rudimentar, como se pouco inteligentes fôssemos, extremamente frustrante.


Autoconsciência: consciência da própria imagem; preocupação excessiva com o que os outros podem pensar de si.

Ansiedade: causada pela expectativa excessiva de obtenção de resultados. A atitude ideal face ao desafio de se assimilar uma língua estrangeira, é a de perseverança e continuidade.


Provincianismo: apego excessivo à identidade lingüística e cultural; forma extrema de monocultura. Atitude de se fechar naquilo com que se identifica, seu jeito de ser e de falar; de se sentir inseguro fora deles - problema freqüentemente observado em adolescentes.

Por outro lado, auto-estima e autoconfiança, desinibição, criatividade (habilidade de improvisação), tolerância consigo próprio, empatia, curiosidade e perseverança são características positivas.

MEMÓRIA – a capacidade de reter e relembrar informações e experiências – é sem dúvida uma habilidade mental que influi no aprendizado de línguas. O grau de capacidade de memória de cada um pode depender de fatores biológicos e psicológicos, mas vai depender muito também de fatores externos. Pesquisas sobre a fixação e a retenção das lembranças permitem determinar que retemos bem aquelas experiências que nos concernem diretamente e nas quais tivemos participação direta. Ao contrário, esquecemo-nos com facilidade o que é neutro, mal estruturado, pouco significativo. Aquilo que alguns autores chamam de episodic memory é mais eficaz do que semantic memory.

Desmotivação, por outro lado, é a ausência de desafio e de motivo espontâneo, freqüentemente agravada pela frustração de não se ter alcançado proficiência através do estudo formal ou pelo insucesso em sistemas de avaliação (exames, notas, etc.). Experiências anteriores de resultados negativos, podem desencorajar o aluno de uma nova tentativa. Também aquele que não se identifica com a cultura estrangeira, - ou que às vezes até a despreza, - normalmente por falta de informação a respeito da mesma, estará desmotivado a aprender sua língua. Este é um problema freqüentemente observado em salas de aula que enfatizam language learning em vez de language acquisition.

Schütz, Ricardo. "O que É Talento para Línguas?" English Made in Brazil http://www.sk.com.br/sk-talen.html. Online. 20 junho 2004.









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